Quando
a língua ultrapassa a sua função essencialmente
comunicativa e se torna, ela própria, a matéria-prima
para uma obra de arte, tem-se como resultado o texto literário.
"Essa aplicação artística da língua
é espontânea e se encontra em todas as sociedades, mesmo
as mais rudimentares." (Mattoso Câmara Jr., 1996)
Para
caracterizar a atividade literária como essencialmente poética,
Mattoso Câmara Jr. afirma: "A poética é a atividade
lingüística que tem um objetivo de arte e procura criar
com a linguagem um estado psíquico de emoção estética
por meio da aplicação sistemática de processos
de estilística. (...) A expressão lingüística
tende a organizar-se em frases ritmadas, na base da entonação,
do número de sílabas, da distribuição mais
ou menos regular das sílabas acentuadas, constituindo-se séries
de versos; mas a POESIA, ou atividade poética em sentido lato,
se faz também em PROSA, isto é, sem essa organização
rítmica das frases."
Várias
são as possibilidades de exploração da linguagem
com esta função poética: no material sonoro, nas
palavras, na associação de idéias, nas construções
frasais. Para isto utilizam-se o ritmo, a harmonia imitativa, a rima,
a aliteração, as figuras de palavras, as figuras de pensamento,
as figuras de sintaxe.
A
poesia pode se manifestar tanto em forma de prosa
quanto em forma de verso. A poesia é a qualidade
particular de tudo o que toca o espírito, provocando emoção
e prazer estético. Embora no uso comum a palavra poesia
seja utilizada para nomear o texto literário em forma de verso,
a poesia não se confunde com poema, que "é
a fixação material da poesia, é a decantação
formal do estado lírico. São as palavras, os versos e
as estrofes que se dizem e que se escrevem, e assim fixam e transmitem
o estado lírico do poeta." (Antonio Soares Amora, in Língua,
literatura e redação, de J.D.Maia)
A
poesia pode ainda ser encontrada em outras manifestações
artísticas, como a pintura, a música, a dança,
etc. O prazer estético é o que sentimos ao ler um texto
poético, ao observar um quadro, ao ouvir uma música, quando
nos sensibilizamos e experimentamos um estado emotivo ou lírico.
Um
texto literário pode ser produzido em prosa ou verso: prosa
é um discurso contínuo, não fragmentado, organizado
em períodos e parágrafos; verso é
uma sucessão de sílabas ou fonemas formando uma unidade
rítmica e melódica que corresponde, normalmente, a uma
linha do poema. Algumas diferenças entre prosa e verso poderiam
ser assim resumidas:
-
na prosa há uma tendência à ordem direta na
estruturação dos termos do período; no verso
há uma tendência à ordem indireta;
-
na prosa a rima é pouco freqüente, enquanto no verso
ela é muito utilizada, apesar de não ser obrigatória;
-
na prosa o ritmo acompanha a naturalidade da fala, enquanto no verso
o ritmo é marcante e existe preocupação com
a métrica;
-
no verso é maior a preocupação com a realização
de seqüências melódicas do que na prosa.
Nos dois textos abaixo,
um em prosa, outro em verso, o tema é a televisão. Entretanto,
cada um tem suas características próprias, como apontaremos
mais adiante.
Texto 26
"Mas
muito lhe será perdoado [à TV] pela sua ajuda
aos doentes, aos velhos, aos solitários. Na grande
cidade - num apartamento de quarto e sala, num casebre de
subúrbio, numa orgulhosa mansão, a criatura
solitária tem nela a grande distração,
o grande consolo, a grande companhia. Ela instala dentro de
sua toca humilde o tumulto e o frêmito de mil vidas,
a emoção, o suspense, a fascinação
dos dramas do mundo."
(Rubem
Braga. Ela tem alma de pomba. Revista Veja, nº. 447)
|
Texto 27
| A
televisão |
O
homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas pra casa não vai não
Em casa a roda
Já mudou, qua a roda muda
A roda é triste a roda é muda
Em volta lá da televisão
No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções
O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões
O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não
A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão |
No
céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Pra mostrar evoluções
O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões
Os namorados
Já dispensam o seu namoro
Quem quer riso, quem quer choro
Não faz mais esforço não
E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão
O homem
da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões
No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões.
(Chico
Buarque de Holanda) |
Comentários sobre o Texto 26
Neste texto, o referente, a televisão, é designado como
um meio de ajuda, de companhia a muitas pessoas. O parágrafo
é extraído de um contexto maior, que pode ajudar a entender
o sentido mais amplo das idéias colocadas.
As
orações são coordenadas, mas a ordem não
é necessariamente a ordem direta. Os termos também são
coordenados entre si, encadeando-se de forma objetiva. Os vocábulos
são utilizados no seu sentido referencial.
Do
ponto de vista da construção, o texto não contém
elementos inesperados que exijam do leitor uma reflexão mais
profunda. A linguagem é referencial e serve como suporte de uma
argumentação.
Comentários
sobre o Texto 27
Este texto se apresenta como um todo autônomo, independente de
um contexto mais amplo para ter significação. Embora a
disposição das linhas seja em versos, não existe
uma metrificação regular. Algumas repetições
de palavras contribuem para o ritmo e para as significações
de desânimo, impotência diante do poder da televisão.
A
palavra botões, combinada primeiro com o verbo falar (Fala
só com seus botões e Samba só com seus botões),
mostra a solidão do homem; mais adiante, combinada com o verbo
ligar (E vai ligar os seus botões), mostra a rendição
do homem ante o fascínio da televisão. As conversas, o
namoro, a dança, atividades que pressupõem mais de uma
pessoa, são substituídas pela tela da televisão,
numa atividade isolada e solitária.
Mostramos
aqui algumas diferenças entre o texto em prosa e o texto em verso.
Mas é bom ressaltar que um texto em prosa pode ser também
um texto poético, desde que nele o autor utilize alguns recursos
da linguagem. A prosa se caracteriza sobretudo pela predominância
da função referencial da linguagem. Não é
suficiente contrapor verso e prosa com a finalidade de diferenciar poesia
de poema.
O
exame cuidadoso de um texto em prosa (não-literário) vai
nos mostrar que o ritmo acompanha a naturalidade da fala, que ele é
contínuo, é passível de ser resumido, visa a uma
recepção mais ampla, tentando falar a todos, convencer,
informar e mesmo servir de lazer. Já um texto poético,
em prosa ou em verso, vai apontar um ritmo trabalhado, marcado pelas
sonoridades; trata-se de um texto não-resumível, mais
irracional, que apela para os sentimentos e que visa a encontrar no
leitor um cúmplice que estebeleça com o texto uma identidade
de sentimentos.
